Can China Rise Peacefully?


"My theory of international politics says that the mightiest states attempt to establish hegemony in their own region while making sure that no rival  great power dominates another region. The ultimate goal of every great  power is to maximize its share of world power and eventually dominate  the system.” John Mearsheimer

Estas palavras de John Mearsheimer, um dos maiores teóricos do realismo ofensivo, sintetizam a sua teoria e estão presentes numa das suas grandes obras "The Tragedy of Great Power Politics". Nesse texto, de título Can China Rise Peacefully?, o Professor de Chicago teoriza que a China ao tornar-se gradualmente mais poderosa, irá tentar dominar a Ásia da mesma forma que os Estados Unidos dominaram o Hemisfério Ocidental. A China tentará por todos os meios afastar os Estados Unidos da Ásia-Pacífico e tentará também dominar os seus vizinhos de forma a ser a potencia regional absoluta. O seu objectivo final será o lugar cimeiro na liderança mundial. 

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Há duas razões para se estar pessimista neste momento em relação as intenções da China.

A primeira é que a China é hoje claramente um poder revisionista: quer o Taiwan de volta; quer várias lhas Diaoyu de volta; quer dominar o mar da China Meridional; tem disputas fronteiriças com a Índia e com o Butão, desrespeita ostensivamente o “um pais dois sistemas” em Hong Kong (mais) e em Macau (menos)... É um país que tem incentivos muito poderosos para usar as suas forças militares de forma a mudar o status quo regional da maneira que achar que mais a favorece.

A segunda razão é o crescente nacionalismo chinês. Os chineses têm um sentimento negativo profundo de terem sido vítimas de grandes potências no passado. O Japão é especialmente importante nesse sentido – tal como os Estados Unidos. Este nacionalismo está a ser dirigido ostensivamente contra estes dois países por um novo actor; o seu presidente XI Jiping. 

Após a morte de Mao em 1976, foi necessária uma profunda renovação na China. A doutrina marxista-leninista-maoísta revelou-se incapaz de gerir o enorme país, mas, acima de tudo, a experiência maoísta demonstrou a necessidade de um governo mais colegial , no qual o poder não resida nas mãos de um único homem. Inúmeras reformas para descentralizar o poder foram introduzidas. Em particular, a figura do Presidente do Partido Comunista Chinês foi eliminada e substituída pela de Secretário, com menos poderes e com mais controle pelos membros do partido. Nas décadas seguintes, sob a influência política de Deng Xiaoping, o governo chinês abriu-se a economia de mercado. O crescimento foi exponencial e a pobreza grandemente reduzida.

Nestes anos de crescimento económico o partido renunciou ao culto de personalidade do Secretário, governando colegialmente. Em 1992 foi introduzido um limite de dois mandatos ao Secretário, seguindo os modelos ocidentais e americanos. Mas, em apenas seis anos, Xi mudou radicalmente o curso da política chinesa com uma série de medidas focadas no seu culto, eliminação de adversários com a justificação de luta anti-corrupção,  potenciação do etno-nacionalismo chinês com ataques racistas a minorias como os muçulmanos de Uigur na região de Xinjiang, bem como no controle reforçado do partido sobre o exército e sobre a sociedade chinesa.

O próximo passo de Xi será garantidamente reconstituir o papel de presidente do partido, que anteriormente pertencia a Mao Tse Tung e que tornará ainda mais evidente a posição de Xi Jinping como um ditador. Hoje a China está na metade inferior de todos os rankings de democracia e dos direitos humanos.

A UE e a China; uma relação desgastada

A estratégia inicial da União Europeia (UE) em relação a China foi de pleno acolhimento, numa perspectiva de defesa da Globalização. A EU tinha uma estratégia que passava pela chamada “aposta na convergência” que sustentava que a China gradualmente se tornaria um cidadão global, cada vez mais responsável no capítulo dos direitos humanos e bem-vinda nos mercados e nas instituições internacionais em particular nos países Europeus.

Mas, em vez disso, aconteceu o contrário. Sob a presidência de Xi Jinping, a China tornou-se mais autoritária e não só no capítulo militar. Com o estado chinês a aumentar o seu papel na economia mundial, veja-se a tremenda iniciativa económica / comercial one belt, one road, os mercados chineses tornaram-se menos receptivos para as empresas europeias e as iniciativas Chinesas têm forçado as empresas europeias a sair do seu mercado. A China também já não está interessada em competir no segmento de produção de baixo valor agregado. Está a crescer na cadeia de valor global e a penetrar nos sectores que os europeus e americanos consideram centrais para o seu futuro económico e, neste combate, a forma de ganhar vantagem não é muitas vezes a mais licita com recurso à espionagem industrial e ataques ciber.

É neste contexto que destaco o reprovável comportamento da China durante a pandemia. Após a crise financeira global de 2008, a China parecia surgir-nos como uma potência global responsável, participando dos esforços coordenados de apoio financeiro às economias mais debilitadas. Mas desta vez isso não aconteceu. O primeiro sinal foi o lamentável encobrimento do início da pandemia em Wuhan que tanto tempo de reacção roubou ao Mundo, causando a devastação em que estamos envolvidos neste momento.

Quando o coronavírus já se espalhava a partir da cidade chinesa, a UE enviou no total quase 60 toneladas de equipamentos médicos para a China. Grande parte desse equipamento era de stocks estratégicos nacionais e foi enviado discretamente, a pedido da China. Ao invés, quando a pandemia chegou à Europa, o governo chinês fez grande alarido das ofertas à Europa, fazendo-se mesmo cobrar por esse apoio. A China tem usado a crise do COVID-19 para conseguir por um lado, e cimentar por outro, acordos económicos politicamente controversos, principalmente com países do leste europeu que estão de costas viradas para a EU, como a Sérvia, Polónia ou Hungria.

Relativamente ao 5G, a União Europeia ainda está a perceber em como chegar a um acordo entre os seus estados e em como equilibrar a contenda entre a China e os Estados Unidos; a UE ainda tenta perceber como incentivar o livre comércio mas, ao mesmo tempo contrariar  os interesses da China que pratica a subsidiação de empresas como a Huawei, uma empresa totalmente controlada pelo Partido Comunista Chinês, uma Europa que investe em descobrir como construir sua própria independência e soberania sem beliscar as duas superpotências, uma EU que precisa da tecnologia 5G para garantir um futuro digital para as suas economias nacionais mas, que também se quer proteger da guerra cibernética, garantindo a protecção dos direitos e os dados dos seus cidadãos.

Todo este novo cepticismo Europeu em relação à China potenciava o caminho– mesmo com o Brexit – para uma cooperação transatlântica cada vez mais estreita. Mas, atacando a Europa com tarifas e sanções, o governo Trump confundiu Merkel e Macron. O que deveria ser óbvio neste momento como uma escolha clara, tornou-se neste “novo normal” num problema adicional que só beneficia a China que vai tomando conta das organizações mundiais, como a OMS, a seu bel prazer; uma EU e uns EUA de costas voltadas é o que de pior podia acontecer neste momento.

Desde que a crise do COVID-19 eclodiu, a UE demonstrou maior disposição de recuar contra as campanhas de desinformação chinesas e adoptou medidas para proteger as empresas europeias em dificuldades de serem compradas por investidores chineses. De uma forma ou de outra, as mudanças estruturais que se estão a operar na ordem global podem eventualmente ter produzido na Europa e no Mundo uma nova visão sobre a China, o seu poder e as suas intenções. Agora que o COVID-19 mostrou as dependências da Europa e as verdadeiras intenções da China, uma mudança estratégica pode estar a caminho. Os factos mostram que resposta teremos de dar à pergunta de John Mearsheimer; Can China rise peacefully? Parece que não.


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