O Calisto que Nos Encalhou

      Imagem do Santo Tirso Digital [Link]

Em ´A Queda de Um Anjo´ de Camilo Castelo Branco, Calisto Elói vai da província onde larga a mulher até Lisboa para, de traje antigo e discurso barroco, salvar a Pátria da degeneração progressista. A seu tempo, logo a corte o seduz findando a história de forma feliz, e um aristocrático Calisto Elói bem amancebado, vestido e alimentado no responso do veludo e da seda. Já ao Dr. Rio, insigne presidente do PSD, apesar do ensejo salvífico aparecer como semelhante, o risco de deixar-se seduzir pela meretriz capital imagina-se inexistente: afinal, não passará o Sr. Presidente da Direção Nacional do PSD tempo suficiente afastado do remanso do seu lar portuense para que a magia negra alfacinha lhe tolde o seu independente e notável juízo.

No entanto, o discurso do Dr. Rio, bem menos fluído e bravo que o de Calisto Elói, não deixa de soar a desígnio parecido ou, pelo menos, aparentado do outro. "Portugal está alagado pela onda de corrupção que subverteu a Roma imperial!", berrava Calisto de Barbuda alertando para a imoral degeneração que Lisboa impunha ao país; e, em sendo eleito, lá se foi ele em liteira  precedida de burros atempadamente enviados atulhados de vinho velho, presunto e orelheira até à imaginada Sodoma lisboeta para, atente-se, "restaurar os costumes desbaratados". Ora, também o Dr. Rio, depois de anos a bradar do Norte contra o centralismo lisboeta, em chegado à Capital, pronunciou solene e gravemente ao que vinha:  orquestrar "um banho de ética", decretou do alto da sua sabedoria pseudo-prussiana.

Verdade seja dita que nestes tempos de profunda corrupção moral, coisa tão degenerada que nem Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda imaginaria ser possível, dias cinzentos e peçonhentos onde cada frase significa corriqueiramente o seu contrário, dificilmente o PSD poderia ter um líder mais apropriado para o zeitgeist — apropriado germanismo — do que o nosso Dr. Rio. A um bom estilo Orweliano, naturalmente em versão traduzida nesse alemão com que o Dr. Rio amiúde brinda o povoléu português, para o Sr. Presidente da Direcção Nacional do PSD uma coisa significa geralmente o seu contrário. 

Senão vejamos. Desde o dealbar, onde o Dr. Rio anunciou um regenerador banho de ética, sobraram de imediato os mui publicados casos dos seus excelentes Secretários-Gerais: um, o primeiro, de curso fajuto e currículo forjado, o outro, e que ainda lá está, de presença fantasma na Assembleia, assinada por outrem, mas com per diem bem depositado, imagina-se que este já em conta própria. No melhor pano cai a nódoa, e ainda para mais logo duas, e sem que o Sr. Presidente se chocasse ou ensejasse sequer ética e célere reparação. Pelo contrário, foi a resfolegar e recalcitrar que o ético líder político resolveu abdicar do primeiro, e nem sequer isso no caso do segundo. 

Depois, no que concerne à táctica, sempre impoluto e inquebrantável, avisou a todos os momentos o Dr. Rio que a ditosa pátria estaria em todo o tempo em primeiríssimo lugar, nada de negociatas políticas, garantia  o Dr. Rio em jeito de mestre-escola. Mas, e já lá vão dois anos e uma meia dúzia de meses, não faz outra coisa o Sr. Presidente da Direcção Nacional do PSD além do que negociar, trocar, mercadejar e chatinar com o Sr. Primeiro-Ministro, o Dr. Costa, personagem lambida e viscosa que o Dr. Rio evita sequer mencionar, quanto mais criticar. Quanto à justiça, seu tema salvador e reformador favorito, já o Partido Socialista aceitava o negócio e se punham os Drs. Costa e Rio em conciliada posição e ainda os deputados social-democratas sequer conheciam a resenha, veja-se o afã do chefe de bando, sempre de orelha aberta para os pedidos do Primeiro-Ministro, a contrastar com a orelha mouca que larga para os seus próprios correligionários. 

Às derrotas eleitorais, essas, ao melhor estilo estalinista em versão lusitana, transforma-as o Dr. Rio em portentosas vitórias. São já duas longuíssimas noites eleitorais onde, do alto do púlpito — porque parece homilia e não discurso —, discorre longa, penosa e aborrecidamente, de folha de cálculo na mão, sobre os méritos das vírgulas e centésimas que, segundo ele e mais ninguém, comprovam para lá de qualquer suspeita, falta de convencimento ou dificuldade de acreditar, que a derrota foi uma vitória, que o perdedor afinal é vencedor e que a glória lhe será devida, isto se não forem aqueles que aguentam a palestra incréus de espécie vil e torpe que não aceitem a verdade quando lhes é catedraticamente cuspida nos olhos.

À proverbial moleza para com o poder que sonha um dia substituir, assim ao modo carunchoso do cair de podre ou velho, corresponde o Sr. Presidente da Direcção Nacional do PSD uma notável agilidade e vontade persecutória para com outros, menos poderosos e mais pequenos, os contestatários internos, gente pobre e mal agradecida, maléficos sacripantas, corja sem valor e que, cite-se alguns dos seus notáveis apoiantes, "merece ser corrida" ou, quiçá, em versão higiénica, "limpa dos cadernos". 

O maior imbróglio para o Dr. Rio, notou-se, foi o malfadado Parlamento onde, de sacrifício, tinha à quinzena que intentar pelejar com o Primeiro-Ministro, um manhoso que compensa a falta de articulação silábica com o arroto e o insulto. Espectáculo desagradável, é certo, em particular para o Dr. Rio que tudo organiza de modo à negociação de bastidor, ao unânime concordar com a Situação. Não façamos pouco caso, pois, da dificuldade parlamentar em orar a crítica de circunstância enquanto intenta em simultâneo, mesmo que o outro goze e, entre perdigotos, ria da sua cara, manter o agrado e o estreitar de laços conciliadores.  Não pode ser fácil, de facto, compreende-se o predicamento. 

Assim, tratou o Dr. Rio de resolver o problema, quer o retórico, quer o outro, mais grave, que era o da deslocação quinzenal a Lisboa, crê-se que não de burro ou liteira, mas desagradável não obstante. E qual foi a solução? Ora, que se acabem os debates quinzenais! Um portento de engenharia política, o Dr. Rio, desta ninguém se haveria de ter lembrado.

Os apoiantes aplaudem, claro, o brilhantismo independente de quem, apesar de contra o seu interesse particular, decide com imperial neutralidade; ao mesmo tempo, os outros que compõem a maioria  que habita fora da sede partidária ali a meio caminho entre a Arrábida e Massarelos, pasmam-se perante a capacidade, essa sim constante, de decidir contra o interesse do partido ou do sistema democrático, e sempre, um dado que suscita curiosa perplexidade, a dar jeito e carinhoso conforto ao suposto adversário, o seboso Dr. Costa.

Alguns corajosos votaram contra o arranjinho, mártires de causa perdida, como se adivinhava, a maioria seguiu, naturalmente, a trote e comando da voz do chefe. Concomitantemente, em nome da democracia e da regra procedimental, lá vem o Dr. Rio já anunciar que há "processos" contra esses pérfidos recalcitrantes que votaram fora do combinado. Claro está, o processo não é o Dr. Rio que o move, é o Grupo Parlamentar. Do mesmo modo, o julgamento não é também coisa que o Dr. Rio se digne a partilhar em público. É com o Conselho de Jurisdição. Neutro, sempre acima da polémica, como bom burocrata socialista, o Dr. Rio lava as mãos em público daquilo que ordenou em privado, quiçá irritado ainda pela derrota que sofreu — mais uma — ao resolver meter bedelho indevido em eleição interna da JSD. 

Irado, no rescaldo, exigiu em público o Sr. Presidente da Direcção Nacional do PSD "lealdade e disciplina" ao novo Presidente da sua juventude partidária; mas, como a coisa levantou lebre e deu celeuma, logo tratou de retirar a demanda e dar o dito pelo não dito — post apagado, história reescrita, um mal-entendido, certamente. No dia seguinte, ainda o relógio da Igreja não batia as nove da manhã e lá seguiu o justíssimo processo, ainda para mais sendo o novo Presidente da JSD um dos implicados no horrendo crime lesa-Dr. Rio, o mais grave de todos, aquele de não votar como o mestre-sala decretou. 

Quanto ao processo, tudo conforme o regulamento, imagina-se, assim como bom notário ou contabilista, na arte de lamber a ponta do lápis e seguir à risca o procedimento da repartição, nisso o Dr. Rio não tem par. Já como líder político que se oponha à Situação não se pode dizer o mesmo: mal se conheceu, por exemplo, o programa governamental para a salvação nacional pós-pandemia, uma monstruosidade que aposta ao melhor estilo socrático em esbanjar o que não há construindo aquilo do qual não se precisa, sobre esse assunto o Dr. Rio anunciou que "não lhe merecia oposição". Coerente, aceite-se isso, pois que se há coisa que o governo não merece ao Dr. Rio é normalmente oposição; infortúnio o nosso que nos tenha calhado em sorte como líder da, note-se, Oposição um indivíduo que aquilo que não gosta de fazer é, precisamente, a... oposição — aliás, pelo contrário, que até faz gala em não a fazer.

Nos entretantos, enquanto dura o ensejo do Dr. Rio de enxugar e expurgar o seu partido de tudo o que imagine como ponto de possível discórdia, vai a casa a que preside definhando em quejando destino do seu presidente: seco, oco, vazio. O desastre espelha-se nas sondagens, é certo, nas derrotas eleitorais também, mas, em pior, nas mentes de possíveis, ou antigos, eleitores que agora, fruto da gozação e da risota que a "oposição" do Dr. Rio merece, perante o ridículo e o embaraço, se voltam para outras paragens que, como sempre em política, vão ocupar o vazio que o outro, a ferro e fogo, teimosamente, como os burros de Calisto Elói, insistiu em vir deixar.

Calisto corrompeu-se, é certo, mas no final, foi à sua vida. Já o Dr. Rio que nunca foi outra coisa diferente daquilo que é, esse temos ainda que gramar com ele, mesmo que em versão caranguejola traquejante, sempre no balbucio justificativo do vazio que a mais não promete, e no ajuste de contas interior que de forma permanente não cessa de exigir a quem não lhe beije os pés e afague os calos. Até quando durará o calvário, isso é o que não sabemos. 

Sobra o alívio de saber-se que se há uma coisa certa na vida é a de que tudo passa — e, ao contrário do que o próprio imagina, também o Dr. Rio passará. Até esse abençoado dia em que a liteira leve o pretenso ensaboado de ética de regresso à cidade invicta aparecer, sobra o opróbio, a tristeza e, naturalmente, a resistência. Haja paciência para a penitência. 

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