Entrevista a Gustavo Sampaio - Director Adjunto do Polígrafo

As duas primeiras secções de perguntas são de carácter filosófico pois o Polígrafo trabalha em torno da aferição da “Verdade”. Esta é objecto de estudo religioso, histórico, científico e filosófico desde as origens do Pensamento Humano e é considerada de difícil achamento. Mesmo no campo científico há aproximação à “Verdade” cada vez que se aplica o método científico e se chega a uma conclusão, mas, é base científica tudo questionar e aquilo que hoje é considerado verdadeiro - mesmo cientificamente - amanhã pode ser posto em causa (Ler sobre Teoria da Refutabilidade, Karl Popper).


1. O dicionário Priberam define assim “Verdade”:


“Conformidade da ideia com o objecto, do dito com o feito, do discurso com a realidade”.


a) Como é que analisando a realidade humana, sobretudo nas suas vertentes sócio-políticas, de elevada complexidade e subjectividade, o Polígrafo (que caracteriza os seus objectos de análise como “Verdadeiro”, “Impreciso”, “Falso”) garante a exactidão das suas classificações reduzindo essa subjectividade ao mínimo? 


Resposta: “1. a) Ressalvo desde já que vou responder às suas perguntas de forma superficial, não tendo o devido tempo para fundamentar e desenvolver temas tão complexos, e em nome individual, sendo as opiniões aqui expressas da minha inteira responsabilidade. Tal como sublinha, “a realidade humana, nas suas vertentes socio-políticas”, apresenta questões “de elevada complexidade e subjetividade”. As ciências sociais e políticas não são ciências exactas. Pelo que muitas vezes não se enquadram ou não são passíveis de serem objectivamente analisadas no âmbito de um artigo jornalístico de verificação de factos. Há muitas questões ou publicações que nem sequer abordamos por causa dessa subjectividade. Procuramos estabelecer um ângulo de análise objectiva, baseada em factos concretos, fundamentada por especialistas, mas quando não é possível simplesmente não fazemos.”.


b)  Será correcto afirmar que as análises do Polígrafo têm uma probabilidade relativa de serem “Verdadeiras” e não de serem “Absolutas”?


Resposta: “1. b) Entendo que não há “verdades absolutas” e que, mesmo nas ciências exactas, há “verdades” de hoje que podem vir a ser refutadas amanhã. Aliás, esse é um princípio científico basilar, “até prova em contrário”. Não sou religioso, mas neste âmbito considero que algumas religiões têm um efeito positivo de representação de uma espécie de “humildade” ontológica de um ser humano minúsculo e ignorante perante um cosmos infinito, invisível, desconhecido. Serve de contrapeso aos ímpetos de arrogância e megalomania das ciências exactas que, afinal, ainda nem sequer garantiram protecção eficaz contra um vírus respiratório. Posto isto, uma coisa é ser cauteloso ou céptico relativamente a supostas “verdades absolutas”, outra coisa é recusar a penicilina ou as vacinas porque não há “verdades absolutas”. O relativismo levado ao extremo é tão ou mais perigoso do que a arrogância absolutista. Sim, no fundo é uma questão de “probabilidade”, tal como indica. E quanto maior a “probabilidade”, maior a credibilidade do jornalista. Desde há cerca de 20 anos que publico artigos e livros regularmente, assinados com o meu nome, respondo e responsabilizo-me por cada sílaba.”.



2. No Estatuto Editorial do Polígrafo, o primeiro ponto:


“O POLÍGRAFO é um projeto jornalístico online que tem como principal objetivo apurar a verdade – e não a mentira - no espaço público.”


O termo “fake-news” apesar de ter nascido no século XIX, popularizou-se em 2015 e 2016 na sequência das eleições americanas para a presidência. Ou seja, a questão base era identificar o que era “falso” e não o identificar/descrever da “verdade”. 


a) Por que motivo entenderam, no estatuto, ser melhor “apurar a verdade”? Não será mais difícil “apurar a verdade” do que identificar a falsidade de um eventual facto apresentado como verdadeiro? 


b) Não considera ser menos sujeita a subjectividade, a procura da “mentira/falsidade” num qualquer objecto noticioso do que “apurar a verdade”? 


c) Como vê, no contexto do Polígrafo, o dito comum “não há donos da verdade”?


Resposta: “2. a) b) c) Parece estar a evocar o espírito do conceito de “liberdade negativa” de Isaiah Berlin, é mais fácil definir o que não é a liberdade do que definir o que é a liberdade, a distinção entre “liberty from” e “liberty to”. Concordo que é mais difícil “apurar a verdade” do que “identificar a falsidade”, aliás isso tem-se verificado no nosso trabalho diário. Não teria escolhido essa fórmula de redacção que teve origem numa fase ainda muito embrionária do projecto e talvez venha a ser entretanto actualizada e melhorada.”.



3. No jornalismo tradicional as grandes questões que se procuram responder numa qualquer notícia são: quem?; o quê?; onde?; como?; quando?; e porquê?.


Nessas questões o fundo é de uma averiguação de facto. Sendo que o facto poderá ser assim classificado como sendo verídico ou credível (uma aproximação à “verdade”), ou não. 


a) Porque motivo não consideraram melhor optar por uma classificação “Factual/Não Factual” dos objectos de análise dentro da tradição jornalística referida?


Resposta: “3. a) A definição de 7 ou 8 categorias gerais de classificação implica sempre uma componente de simplificação. Poderiam ser 70 ou 80 categorias. Tal como o título de um artigo é sempre uma simplificação do conteúdo do mesmo que importa ler integralmente. As categorias “Factual / Não Factual” poderiam ser classificações mais acertadas para determinadas situações, mas também seriam menos acertadas para outras e não se aplicariam a muitas outras, tais como imagens manipuladas, informação descontextualizada, etc. As maiores referências mundiais do jornalismo de verificação de factos, baseadas nos EUA, com vários prémios Pulitzer nos respectivos currículos, utilizam as categorias “Verdadeiro / Falso”. O que importa sublinhar, na minha perspectiva, é que os artigos devem ser lidos integralmente. Em determinadas situações, a classificação de “Falso” pode equivaler a “Errado” ou “Enganador” ou “Descontextualizado”. Há sempre uma componente de simplificação, quer na classificação geral, quer no título, quer no destaque visível na promoção do artigo em redes sociais. Qualquer artigo jornalístico deve ser lido integralmente. Não é possível condensar toda a informação em causa numa categoria de classificação, num título ou num destaque.”.



4. O Polígrafo é credenciado pela IFCN (International Fact Checking Network). Sem essa credenciação não poderia ser reconhecido como Fact Checker pelo Facebook e Google. 


A IFCN tem vários accionistas. Um desses accionistas é a Open Society Foundation de George Soros (Major Funders). 


George Soros é um homem com manifestada actividade política e financeira nem sempre “moralmente” aprovável. Alguns dados factuais sobre George Soros:


  • Em 1992 “quebrou” a Libra Esterlina provocando um quase colapso do Banco Central Britânico estimando-se ter ganho cerca de mil milhões de USD; 

  • Também em 1992 organizou uma lucrativa operação semelhante contra a lira italiana, obrigando a Banca d’Italia à mais cara operação de sempre de sustentação do valor cambial da sua moeda;

  • Em 1997 através do Quantum Fund esteve envolvido no colapso da moeda tailandesa (numa tentativa aparente de provocar uma mudança de regime) conseguindo lucrar vários milhares de milhões de USD;

  • Lendo Essays constata-se os múltiplos interesses políticos de George Soros. Ou seja, George Soros terá indiscutivelmente uma agenda política e de influenciação do desenvolvimento da “realidade” e dos factos que a sirvam.


a) Considera que essa associação a George Soros (directa via IFCN e sendo o vosso projecto considerado por Estatuto Editorial) “apolítico”, poderá de algum modo afectar a desejada imagem de isenção, rigor e neutralidade jornalística do Polígrafo?


Resposta: “4. a) A credenciação não envolve qualquer forma de financiamento. Não há qualquer interferência ao nível editorial, nem eu aceitaria fazer parte de um projecto jornalístico que se submetesse a outros interesses ou critérios que não fossem estritamente editoriais. De resto, o “Código de Princípios” da IFCN estabelece sobretudo um compromisso de “transparência” e “accountability”. É precisamente a antítese do que está implicitamente sugerido na sua pergunta.”.



5. Tem alguma mensagem que gostaria de deixar aos leitores desta entrevista?


Resposta: “5. Talvez assinalar que as recorrentes acusações de “censura” dirigidas a jornalistas que escrevem artigos de verificação de factos não fazem muito sentido. As analogias com os procedimentos da PIDE ou da Stasi extravasam mesmo o limiar da decência, na medida em que equiparam o encarceramento, tortura ou mesmo execução sumária de pessoas por delito de opinião ou dissidência política à mera sinalização de que um texto ou imagem difunde informação falsa ou enganadora, em forma de aviso, sem apagar nada. São acusações e analogias completamente absurdas, na medida em que associar um aviso de “informação falsa ou enganadora” (baseado num artigo jornalístico de verificação de factos) a um texto ou imagem não equivale de todo a queimar livros, “lápis azul”, escutas telefónicas, etc. Sublinho também que não se analisam publicações privadas, ou limitadas ao círculo de “amigos” na rede social, mas exclusivamente as que têm alcance público, abertas a todos. Estão no espaço público. Acresce a ironia de muitos desses acusadores de “censura”, em simultâneo, estarem constantemente a ameaçar jornalistas (e não só) com processos judiciais por suposta difamação… Voltando ao espírito de Isaiah Berlin, posso não conseguir definir exactamente o que é a liberdade, mas concluo com maior facilidade e segurança que muitos desses acusadores defendem tudo menos a liberdade que estão sempre a evocar dissimuladamente.”.

Comentários

  1. Gostaria que o jornalista Gustavo Sampaio respondesse á demonstração de censura da verdade que fez a posts de pessoas associadas ao blog Blasfémias, demonstrado neste artigo:
    https://blasfemias.net/2020/05/11/caiu-a-mascara-ao-poligrafo/

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  2. Quando alguém singular ou em grupo se diz Juiz da Verdade, já se denunciou como uma Fraude dessa mesma Verdade!

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  3. Ainda assim, o facto de catalogarem as "notícias" que analisam acaba por ser usado pelo Facebook para silenciar os autores, ou não?

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