ORDEM OCIDENTAL E (PÓS)-LIBERALISMO: CONTRIBUTO PARA UMA PROBLEMATIZAÇÃO NECESSÁRIA

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Segundo recentes declarações de defesa da ordem democrática ocidental, as (supostas) patologias políticas do tempo presente exigiriam uma reafirmação militante da ortodoxia pública liberal* que enformaria a referida ordem**.


Salvo o devido respeito, uma tal leitura dos sinais dos tempos e as consequente reflexões oferecidas afiguram-se altamente questionáveis. 


Não obstante louváveis ressalvas, haverá, desde logo, quem possa facilmente vislumbrar nas referidas declarações, ao arrepio das intenções dos seus autores, um argumento favorável a um “cancelamento” dos direitos políticos de cidadãos que, embora não professando a “boa doutrina”, nem por isso deixam de participar numa «fundamental igualdade numa humanidade comum». 


Seja como for, há fortes razões para duvidar de que a solução para as hodiernas crises e patologias políticas esteja em redobrar a insistência na continuidade da longa marcha histórica de um conceito de liberdade negativa, de uma liberdade individual que apenas teria como regra a liberdade entendida como ausência de regra substantiva (como bem sintetiza o jusfilósofo italiano Danilo Castellano). Um conceito hoje tornado integral e abrangente, por via de uma tácita divisão de trabalho entre centro-direita, centro-esquerda e esquerda radical realmente existentes (liberalismo de conteúdo económico mais liberalismo de costumes, reforçando-se mutuamente). 


Bem vistas e analisadas as coisas político-jurídicas, o liberalismo das últimas décadas tem-se revelado cada vez mais como fonte de práticas e normas…iliberais, num sentido autoritário ou já mesmo totalizante/totalitário, como tem sido recentemente assinalado na academia norte-americana por um Patrick J. Deneen. Em nome de recém-descobertos direitos humanos de autodeterminação individual ditos inquestionáveis, chega-se hoje ao ponto culminante de (meta)decretar um brutal estreitamento do campo das discussões e deliberações públicas e políticas tidas como razoáveis – é o que sucede no tocante a importantes e centrais dimensões antropológicas do começo e do fim da vida (humana) e da configuração da família e da reprodução da espécie… 


Depois, é no próprio terreno do triunfante consenso liberal que se poderão encontrar as condições genéticas das notadas novidades políticas contemporâneas.


Os ditos populismos não se entenderão como reações à crise, material e de vazio simbólico-espiritual, da ordem liberal globalizada e agora também à identity politics pós-ocidental e pós-nacional? 


A própria identity politics progressista não terá emergido como radicalização de “ideais éticos” de autonomia e autodeterminação individuais (gender fluidity) e, por outro, como resposta quase religiosa fornecedora de propósitos de conduta à liberdade vazia do indivíduo soberano…e de ocasiões de expiação e emenda (destruição violenta das narrativas e memórias nacionais partilhadas)?


A louvável defesa da ordem ocidental talvez se deva voltar para horizontes pós-liberais: em direção a uma redescoberta das suas fontes filosóficas e teológicas clássicas e cristãs(-católicas) e das raízes históricas e narrativas comunitárias-concretas que alimentaram. Por tal passará também a necessária salvaguarda – num quadro maior (re)fundante e justificante – de um conjunto de bens e instituições que a tradição liberal argumentavelmente terá diferenciado ou contribuído para diferenciar, mas que agora o liberalismo acabadamente ideológico “desnaturaliza” e tende a matar, num caminho de autodestruição: pensa-se, por exemplo, na liberdade de expressão do pensamento…


A esfera pública e o espaço político portugueses muito ganhariam com uma presença que soubesse dar voz a estas perspetivas. 


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* Para utilizar um termo de Frederick Wilhelmsen e Willmoore Kendall. 

** https://www.publico.pt/2020/11/10/politica/opiniao/clareza-defendemos-1938518

** Neste sentido, embora não de uma perspetiva pós-liberal, ver: https://artigos.contracorrente.pt/2020/11/a-clareza-do-vazio.html .

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